Pilhas: Envenenamento Coletivo

O PRESENTE ARTIGO FOI ESCRITO EM 1999, NO ENTANTO NADA FOI FEITO ATÉ AGORA. SEGUIMOS ENVENENANDO A TUDO E TODOS.

Pilhas: Envenenamento Coletivo

(jornal O Globo, 24/06/1999)

Um veneno é lançado diariamente no meio ambiente por milhões de pessoas: pilhas e baterias de celulares, consumidos e descartados em escalas cada vez maiores. Uma pilha comum contém geralmente três metais pesados: zinco, chumbo e manganês, além de substâncias químicas perigosas como o cádmio, o cloreto de amônia e o negro de acetileno. A pilha de tipo alcalina contém também o mercúrio; esta é uma das substâncias mais tóxicas que se conhece e que há cinquenta anos contaminou a baía de Minamata no Japão, produzindo distúrbios neurológicos em milhares de pessoas, em pássaros e em gatos que se alimentaram de peixes que acumularam mercúrio nos seus organismos.

Em São Paulo são anualmente descartadas no meio ambiente 152 milhões de pilhas comuns e 40 milhões de pilhas alcalinas, segundo dados da Cetesb (a empresa paulista de saneamento ambiental), e cerca de 12 milhões de baterias de celular. Estas contêm lítio, níquel, cádmio e chumbo ácido. A soma é superior a 200 milhões de unidades a cada ano! No Rio de Janeiro a estimativa anual totaliza 90 milhões de unidades.

A maior parte dos metais pesados e substâncias químicas contidas nas pilhas e baterias de celulares entram nas cadeias alimentares e terminam acumuladas nos organismos das pessoas, produzindo vários tipos de contaminação. O destino convencional das pilhas e baterias são os aterros e as usinas de compostagem. Nos aterros, expostas ao sol e à chuva, as pilhas se oxidam e se rompem; os metais pesados atingem lençóis freáticos, córregos e riachos. Eles entram nas cadeias alimentares através da ingestão da água ou de produtos agrícolas irrigados com água contaminada.

Nas usinas de compostagem , a maior parte das pilhas é triturada junto com o lixo doméstico e o composto gira nos biodigestores liberando os metais pesados. O adubo resultante contamina o solo agrícola e até o leite das vacas que pastam em áreas que recebem esta adubação. O cádmio e o chumbo provocam disfunção renal e problemas pulmonares, mesmo em pequenas quantidades, o manganês e o mercúrio afetam o sistema neurológico e o cérebro, sendo que este último se acumula no organismo por toque ou inalação; o zinco e o cloreto de amônia atacam o pulmão.

Como nossas estatísticas de saúde são falhas, há milhares de casos de intoxicação de pessoas e de animais por estas substâncias sem que se tenha a menor idéia da dimensão do problema.

As pessoas compram pilhas para rádios, controles remotos, jogos, lanternas e simplesmente jogam no lixo, queimam, lançam em rios ou em terrenos baldios. Não têm informação de que se trata de lixo químico doméstico altamente perigoso. As crianças manuseiam pilhas oxidadas, pilhas velhas são guardadas em dispensas junto com alimentos ou remédios. Agricultores compram adubo orgânico e não imaginam que ele possa estar contaminados com os metais pesados das pilhas e de baterias de celular.

Um dos meios de enfrentar o problema é na mudança de tecnologia na própria produção. Isto significa substituir os componentes mais tóxicos (como o mercúrio ) ou reduzir substancialmente sua presença na composição das pilhas e baterias. Algumas empresas européias e americanas têm avançado nesta linha.

Outra linha é a da reciclagem. Nas pilhas comuns é possível reaproveitar a folha de flandres e o zinco, e das pilhas alcalinas pode-se recuperar potássio, sais de zinco e dióxido de manganês. Na Suíça estes processos estão bem desenvolvidos, com reaproveitamento de vários metais .

O mais importante é organizar a cadeia de coleta, envolvendo o comércio que vende pilhas, as telefônicas e empresas que vendem celulares e sobretudo os fabricantes de pilhas e baterias e seus representantes nas diversas cidades. As empresas de limpeza urbana têm um papel fundamental, organizando a coleta seletiva de pilhas e de baterias, mas como ficou demonstrado na experiência da Comlurb no Rio de Janeiro, o esforço será em vão se as escolas, igrejas, associações comerciais e de moradores não participarem. O que houve no Rio foi uma grande falta de informação e de articulação social. Cerca de 70% das 500 caixas verdes foram depredadas (a cultura da bandalha ) e o material recolhido em um ano foi ínfimo, menor do que três quilos por caixa (total anual).

Nossas leis federais e estaduais estabelecem o princípio do poluidor – pagador. Isto significa que quem gera o problema é também responsável por sua solução. As lojas, shoppings, representantes de telefônicas têm de ter caixas visíveis para receber pilhas e baterias, e destiná-los semanalmente para empresas produtoras e seus representantes .

O material não reciclado deverá ter o tratamento de lixo químico, com incineração específica com controle de gazes da combustão ou destinação final adequada em locais impermeabilizados e fiscalizados.

Esta é a campanha ecológica que pode e deve ter a maior participação da sociedade. Embora as empresas que produzem, vendem e anunciam tenham a maior responsabilidade, todos nós, por desconhecimento ou falta de opções, nos convertemos em poluidores do meio ambiente. É chegada a hora de agir. A Firjan e a Associação Comercial decidiram aderir à campanha, assim como o Viva Rio, a AMES e as secretarias estaduais de Educação e de Meio Ambiente. O Clube de Criação poderá conceber as peças de uma campanha mais ampla que supõe horário nobre da mídia televisiva. Educação ambiental é sobretudo mudança de comportamento. Que cada um faça a sua parte, como ensinou o querido Betinho. Bote pilha na reciclagem.

CARLOS MINC, doutor em economia regional por Paris I e professor adjunto da UFRJ é deputado estadual pelo PT – RJ. 

ARMAZENE AS PILHAS EM UM PAPA  PILHAS DE GARRAFA PET, MANTENHA FECHADO E LEVE-O A UM POSTO DE COLETA.
 

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